terça-feira, 15 de setembro de 2015

A greve é só pelo dinheiro!

Ontem eu fiz uma postagem sobre a classificação do Curso de Ciências Contábeis da UFPB, no RUF 2015. Enquanto estava divulgando isso no meu Facebook, lembrei das críticas à Greve dos Professores e as críticas dos alunos, principalmente, aos SEUS Professores... classificando-os como vagabundos e coisas do tipo... e pensei: temos mesmo o que comemorar com o salto no ranking?

Existem péssimos professores que se beneficiam com os aumentos dos salários? Sim. Isso é justo? Completamente injusto (apesar de que os aumentos que temos recebido apenas atestarem aceitação de uma menor perda real do poder de consumo). Mas mais injusto ainda é acharem que os Professores não podem lutar por melhores salários. Adicionalmente, salário é só um dos problemas, porém é um grande problema. No final do post veja o exemplo do artigo de Akerlof que eu trouxe para exemplificar a situação, no limite (esse limite pode estar bem próximo, já podemos ver a "fuga de cérebros").

Apesar de todos os professores se beneficiarem dos salários, tem algumas coisas que só, e apenas só, os Professores se "desbeneficiam" por tamanho descaso com a Educação. Por esses "desbenefícios", eu me pergunto: por que um Profissional bom deveria querer ser Professor em uma Instituição Pública?

Existem muitas vantagens em ser Professor, temos que reconhecer, dentre elas: horário flexível, ter que estudar e aprender coisas novas o tempo todo, conhecer muitas pessoas (muitas delas são boas, mas algumas ruins), ser muito importante na vida de pessoas que você tem pouco contato (nesse exemplo lembro muito do Professor Paulo Cavalcante e de vários outros ótimos Professores que eu tive durante a minha vida toda, desde a minha primeira Professora - Maria Eunice, da alfabetização e de Geografia). Porém existem muitas desvantagens (que eu chamo de "desbenefícios").

Não tenho interesse de ser político, reitor, diretor de centro, chefe de departamento ou coordenador de curso, então essa minha postagem não tem o objetivo de atacar uma pessoa. Quero divulgar alguns problemas nossos, para que as pessoas reflitam melhor sobre o que andam dizendo sobre a greve e, se tiver que atacar algo, que seja todo o nosso sistema político, inclusive da Universidade. Eu até gostaria de ser coordenador, num futuro um pouco distante, pois todos tem que contribuir um pouco com o trabalho da coordenação. Cada professor tem sua função na Universidade e a minha não é ser político, não tenho paciência para burocracia desnecessária.

Quais seriam os "desbenefícios" (estou falando com base na minha pouca experiência, pois sou Professor em uma IFES desde 2012, apenas. Podem  existir casos completamente diferentes, além de outros casos não citados... lembro muito de um Professor meu que dizia que os tempos de vacas magras estavam se reaproximando, como no tempo do tão falado FHC, então deve ter coisa pior que já aconteceu e eu não vivi e que ainda está por vir e eu provavelmente viverei):

  1. O primeiro deles está presente em todas as profissões: os ruins fazem a fama de todos. Logo, todos somos taxados de vagabundos etc, por causa de alguns;
  2. Para continuarmos sendo bons em nosso trabalho, precisamos nos especializar, participar de cursos, workshops etc. Normalmente, as empresas pagam cursos para que seus colaboradores continuem sendo bons no que fazem (ou se tornem bons). Aqui a coisa é diferente, ou você se contenta em continuar desatualizado, ou tem que pagar com seu próprio salário por isso (mas mesmo assim os Professores são vagabundos);
  3. Se você quiser representar sua instituição em um congresso (principalmente se for fora do Brasil), coletar contribuições de outros pesquisadores... pague por isso com seu próprio dinheiro ou esqueça (quem já é doutor tem a possibilidade de conseguir aprovar alguns projetos para financiar isso, porém os recursos disponibilizados não pagam quase nada dos custos totais). É preciso ficar mendigando com os que tem cargos políticos/administrativos, mas mesmo assim muitas vezes nada é conseguido, ou não o suficiente;
  4. Se já não bastasse a falta de apoio financeiro (e isso não é por causa da crise, há vários anos tem sido assim), para um Professor dar entrada em um afastamento para participar de um congresso, ele precisa preencher um formulário de afastamento, escrever um pedido de solicitação de afastamento endereçado ao Chefe do Departamento, anexar a programação do evento e um comprovante de que seu artigo foi aceito para apresentação. É preciso comprovar que você tem alguma coisa a fazer no evento, mas precisa de tantos documentos assim? Porém a quantidade de documentos não é o maior problema, pois você precisa anexar tudo no SIPAC (e o sistema é muito lento), imprimir tudo e entregar no Departamento. Você não vai nem receber dinheiro, mas tem que cumprir toda essa maratona burocrática e sem sentido (se você já está anexando no sistema, por que imprimir? O meio ambiente e o Orçamento da Universidade agradeceriam se não fosse preciso imprimir). Sem contar que o processo é entregue na forma física ao relator, isso implica em mais demora para análise e elaboração do parecer, pois o relator tem que ir no Departamento pegar o processo, analisar, escrever, imprimir, anexar no sistema e entregar de volta no Departamento. Isso tudo toma, pelo menos, 1 hora da sua vida!
  5. Para piorar a situação da falta de recursos normais, nos foi imposta uma redução de recursos aos Programas de Pós-Graduação (imaginem o caso dos Programas que foram aprovados no final do ano passado, que não entraram no orçamento deste ano, e o do ano que vem todos sabem a história);
  6. Para piorar ainda mais a situação (com um fato antigo), não podemos usar a Fundação da UFPB (ela apresentou diversos problemas no passado) para ofertar cursos de especialização, pois a nossa CGU acredita que isso é ilegal. Não podemos cobrar mensalidade. Temos corpo docente e demanda para isso, mas não podemos nos financiar! Mas é claro, se já tem os Professores para financiarem os custos de uma pós-graduação, para que precisamos ter especialização cobrando mensalidades? A educação pública e de qualidade é muito importante para países subdesenvolvidos como o nosso, porém apenas a graduação, mestrado e doutorado deveriam ser "de graça";
  7. Quase toda reunião do Departamento temos uma vaquinha para comprar café, água, biscoito etc. Nas últimas reuniões eu não tenho contribuído mais com essa vaquinha, inclusive. Isso é vergonhoso, como pode não termos dinheiro para comprar café e água?
  8. A internet não funciona como deveria funcionar, temos que usar datashow particular ou torcer para que um dos 4 equipamentos do Departamento não esteja sendo utilizado por outros Professores, o ar-condicionado não funciona etc. Um exemplo meu: eu preciso de internet para preparar minhas aulas, uso simuladores que precisam de internet... então já digo aos alunos que eles só me encontram na Universidade nos dias das minhas aulas e um outro dia na semana, pois não tenho condições de trabalho, tenho que trabalhar em casa. Por outro lado, eles podem me encontrar online (marco até no Skype quando é preciso). Se algum auditor ou outra pessoa estiver achando ruim, dê-me condições de trabalho ou pague minhas horas adicionais e sábados e domingos e feriados e férias e madrugadas que trabalho;
  9. Além de todos os problemas de falta de recursos citados acima (que não são só os salários, mas se fosse seria justo da mesma forma), segunda-feira um quadro de energia pegou fogo na UFPB e nem extintor tinha disponível. Um funcionário teve que gastar do seu próprio carro para apagar (a foto no final do post está circulando em algumas redes sociais). E o descaso da aplicação dos recursos públicos? Quem não lembra das fotos dos banheiros novos da UFPB totalmente "sem noção" que foram divulgadas na internet? Poxa, temos cursos de engenharias e arquitetura, não podemos dar esse exemplo. Será que não é a hora de profissionalizar as gestões das Universidades em diversos níveis, ou pelo menos fazer um experimento, tentar algo diferente? E o descaso dos gestores e outros funcionários e políticos com o dinheiro público? Professor tem que ser Professor, não político. Muitos dos problemas que temos com a gestão dos recursos públicos são políticos e de sabotagem, não de incompetência (porém temos de incompetência também, mas não os culpo, eles não são gestores profissionais, são professores);
  10. Fora os problemas de dinheiro, tem os problemas de profissionais mesquinhos, invejosos, que querem dificultar o trabalho alheio (veja aqui um outro post sobre isso), mas isso não tem muito a ver com recursos... ou será que tem? No limite isso será pior!;
  11. E a burocracia? Isso é o que mais me incomoda. A burocracia em excesso existente nas Instituições Públicas é inaceitável e desestimula a criação de novos projetos. Para colocarmos, por exemplo, um FLUEX, vocês não tem noção da maratona que temos que percorrer e esse tipo de Projeto nem tem bolsa, custo quase zero para a IFES. Por sorte a equipe de extensão da UFPB é muito competente, isso compensa a burocracia institucional. Agradeço também ao ex-assessor de extensão do meu Centro que me deu incentivo para continuar com meu processo, o papel dos assessores é muito importante. Recentemente organizei a I Olimpíada de Contabilidade da UFPB, com um FLUEX, e também ajudei na Brasileira. Estava pensando em não fazer de novo no ano que vem, por causa de toda a dor de cabeça burocrática, mas os meus bons alunos não podem perder essa oportunidade - uma aluna nossa foi a campeão brasileira, inclusive. Ela está no último semestre do curso, espero que não esteja nos chamando de vagabundos também! kkk; 
  12. E quando tem bolsa e recursos maiores, colocam incompetentes para avaliar o mérito. Um colega do Departamento enviou um PROEXT que foi muito bem avaliado na UFPB (9,2), mas foi execrado na etapa nacional porque o Brasil já tem muitos problemas para se preocupar e educação financeira não é tão importante assim. Se fôssemos bem educados financeiramente, talvez não estivéssemos passando pelos problemas que estamos passando hoje. Para quem não conhece o Projeto Educação Financeira para toda a Vida, clique aqui. Para ver o depoimento do Professor que teve o Projeto rejeitado, vá lá no final do post, na nota de rodapé¹. Ser rejeitado está OK, porém desde que seja com argumentos que façam sentido;
  13. Ah, já ia esquecendo dessa: fiz minhas disciplinas do primeiro ano do doutorado em Brasília, viajando todos os meses durante 2013, sem ter bolsa, porque eu sou Professor SEM AFASTAMENTO e Professor sem afastamento não pode ter bolsa (tem que comprar livros, banco de dados, participar de eventos e assistir aulas em outras Universidades com seu próprio dinheiro)!!!!! É um grande incentivo ao afastamento e, pelo que tenho visto com alguns colegas que fizeram doutorado sem afastamento, eles terminam o curso mais rápido (talvez porque não aproveitam para cursar disciplinas adicionais em outras Universidades, ou escrevam menos artigos, não sei - tem um colega do Departamento que terminou com 2 anos e meio e ainda produziu artigos que foram publicados nas melhores revistas do Brasil, fico imaginando o que ele poderia ter feito caso estivesse afastado). Alguns colegas da UFRN ainda conseguiram o pagamento das passagens para assistir aulas em Brasília, mas tiveram problemas na justiça - foram cobrados por isso, para devolver o dinheiro. Quando um Professor se afasta, é necessário contratar um substituto, então temos o custo da bolsa, do substituto, o substituto não gerencia projetos etc etc. Não sou contra os substitutos, eles são muito importantes e às vezes temos substitutos muito mais dedicados do que alguns efetivos;
  14. Não quero também ficar me lamentando muito, eu sabia que ia ser assim quando tomei minha decisão lá em meados de 2008/09 (não tanto, mas tinha uma ideia... me diziam que se eu escrevesse bons artigos poderia apresentá-los no mundo todo e que não teria custo pessoal com isso, poderia contribuir com o desenvolvimento da minha área...). Isso é só para mostrar que não é "só" o salário e se for, ainda assim é justo! Alguém pode dizer: os Professores insatisfeitos deveriam ir para iniciativa privada, então! Pode ser que eles migrem mesmo (como disse, já existem bons Professores saindo desse "sacerdócio" - dois dos melhores da minha área específica são brasileiros e trabalham nos EUA), mas veja o desperdício de recursos públicos que foram investidos nesses Professores (mesmo que tenha sido pouco em alguns casos) (e.g. bolsas quando aplicável, custos do concurso, já que se saírem a UF terá que fazer outro concurso, descontinuidade de projetos de pesquisa e extensão, experiência etc.), ou eles poderiam fazer outro concurso que exija apenas ensino médio ou graduação, mas que paga melhor do que um Professor com doutorado (nesse caso o desperdício de recursos públicos será ainda maior).


Pensando bem, podemos taxar os bons Professores que pagam para se tornarem melhores Professores de vagabundos? Com certeza não! Os alunos estão sendo prejudicados, não há a menor dúvida sobre isso, mas os Professores são constantemente prejudicados e as futuras gerações que forem estudar em uma IFES serão ainda mais prejudicadas (veja o artigo de Akerlof, abaixo).

Até quando a Profissão Professor empolgará nossos Professores?!

Não quero desacreditar na educação, pois acredito que é importante para o Brasil (por ser um país subdesenvolvido) haver educação pública e de qualidade. Se queremos um país bom e bem desenvolvido, com menos desigualdade, é preciso estimular os Profissionais da Educação, não desestimular e dar "desbenefícios".

Finalizando, quem aí já leu "The market for lemons: quality uncertainty and the market mechanism" de Akerlof (1970)? Esse é o artigo que falei acima. Para quem não sabe quem é Akerlof, clique aqui, caso tenha interesse.

Resumindo, trazendo uma adaptação da ideia do mercado para limões para o nosso problema: no limite, os Professores bons sairão do mercado, deixando espaço apenas para os professores ruins (ou aqueles empolgados, que perderão a empolgação e sairão também ou se dedicarão menos). No mercado que Akerlof usou para explicar sua teoria (carros usados), a implicação disso era que como existiriam apenas vendedores e compradores ruins (muita assimetria informacional entre as partes), o mercado deixaria de existir. No nosso caso, o mercado não tem como deixar de existir, mas formaremos profissionais cada vez piores, o que atrapalhará o nosso desenvolvimento e redução das desigualdades existentes em nosso país.

Ser Professor é bom, às vezes, e tem muitas vantagens (que eu sempre enfatizo, mas aqui o objetivo é outro), porém, caros colegas que estão pensando em se tornar Professores (não professores) das IES públicas, pensem bem! "Não caia na armadilha, siga a minha apologia". Tem muitas vantagens, mas tem também muitas desvantagens e desbenefícios.

Quadro de energia pegou fogo
Atualização com um post de um outro Professor da UFPB.
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Nota de rodapé¹: É a velha política de que "quero dar um passo de cada vez", mas atrapalho quem quer dar passos em direção do mesmo objetivo. "(...) Posso não concordar com sua avaliação "AVALIADOR" mas defenderei até a morte o meu direito de sempre tentar e acreditar em um sonho. Depois de uma avaliação de 9,2 na UFPB, chego na nacional a meros 5,5. E ainda tenho que entender isso.
Olha a avaliação
"Apesar de o decreto citar que a educação financeira faz parte da inclusão social, o processo para a juventude negra vulnerável à violência é muito mais complexo, pois muitas vezes tem poucos ou nenhum direito garantido Antes de assegurar educação financeira, há que se garantir direitos fundamentais mais emergenciais, para após a garantia destes, aí sim pensar em educar financeiramente"(AVALIADOR)
Vem conhecer meu trabalho que por falta de recurso não posso expandi-lo "AVALIADOR"
"Educai as Crianças e não será preciso punir os homens" (Pitágoras)
PROEXT 2017 ESTAREMOS LÁ."


5 comentários:

  1. Professor, seu texto é bastante interessante, parabéns. Infelizmente, a administração pública no Brasil não tem jeito e a saída de professores das IFES não ocorre por uma simples razão: eles não teriam onde trabalhar, pois a grande maioria não se adequaria ao mercado de trabalho privado, que exige muito mais dos profissionais!!
    Abs
    Eric

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    Respostas
    1. Obrigado pelo comentário, Eric.

      Não sei se a maioria, mas esses que não se adequariam ao setor privado, não se adequariam por um motivo. Por este motivo, eles não deveriam estar no público também.

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