sábado, 5 de abril de 2014

Visão geral sobre o evento "Damodaran on valuation" (Parte 2: O Lady Gaga)



Em 1º de abril eu fiz uma postagem sobre o 1º dia do evento, comandado pelo Professor Ricardo Almeida. Não havia nenhuma mentira naquela postagem, apesar do dia. Quem não viu clique aqui para ler o material.

Após toda a ansiedade durante o 1º dia, imaginando como seria a apresentação do Professor Damodaran no dia seguinte, após um percurso em trânsito lento, finalmente cheguei ao WTC para assistir à apresentação.

Eu sabia mais ou menos o que esperar, porque acompanho o Musings on Markets (blog dele - conheça também seu site, tem muita coisa boa), e porque sei que ele se denomina: o Lady Gaga das finanças. Então eu pude projetar o que esperar.

Contudo, a minha projeção foi muito conservadora. Foi melhor do que o esperado. A experiência dele com valuation e a sua ótima didática fizeram valer à pena a minha ida à São Paulo.

(sem contar com o primeiro dia que também foi bom, mas... Lady Gaga é Lady Gaga, apesar de Anitta também ser boa - se é que posso fazer essa comparação, não sou fan do estilo, só tentei ser didático como ele... talvez sem sucesso).

Além da experiência e didática, o Professor Damodaran foi muito atencioso com todos que quiseram conversar, tirar fotos ou pegar um autógrafo com ele. Além disso, ele chegou bem cedo ao local do evento, antes do início, e após o almoço ele também voltou bem cedo. Isso demonstra ainda mais a sua atenção com o público. Todos odeiam eventos em que o palestrante chega atrasado...

Mas vamos ao conteúdo.


Autógrafo no meu "Investment Valuation"
SEGUNDO DIA:

Valuation é um ofício que se aprende com o estudo e a prática: O título da palestra dele foi "Valuation: art, science, craft or magic?" e ele começou explicando o porquê disso. De forma resumida, ele diz que valuation é uma craft (habilidade, ofício, profissão etc). E como nós desenvolvemos uma profissão? Primeiro temos que estudar (ele diz que hoje não lê mais livros de valuation, apenas faz valuations), depois temos que fazer. Só se aprende de fato fazendo, e é assim que aprendemos esse ofício.

Para nós que apenas estamos começando a vida nas valuations, ele deu um estímulo e uma dica:  a primeira valuation é muito trabalhosa (esse não foi o estímulo), porém mesmo que você não pretenda usá-la para comprar ou vender algum ativo, guarde-a. A atualização dessa valuation será muito mais rápida do que a primeira valuation e você estará conhecendo a empresa. O estímulo foi que, em suas palavras, "mesmo que você não tenha coragem de usar suas primeiras valuations, persista. Um dia você se sentirá seguro e com conhecimento o bastante para usá-la".

Alguns mitos: Após essa introdução, explicando como se aprende a fazer valuations, Damodaran entrou na parte "clássica" dos "mitos da valuation". No "Investment Valuation", por exemplo, há 5 mitos. Na apresentação ele citou explicitamente apenas 3, com o comentário em seguida:
  1. Mito - A avaliação é uma busca objetiva do valor "verdadeiro": todas as valuations distorcem a realidade. A única dúvida é o grau e a direção dessa distorção, que são diretamente proporcionais a quem lhe paga e quanto essa pessoa pagou;
  2. Mito - Uma boa valuation fornece uma estimativa precisa do valor: não existem avaliações precisas; e
  3. Mito - Quanto mais quantitativo for um modelo, melhor é a valuation: nosso entendimento de um modelo de avaliação é inversamente proporcional ao número de insumos exigidos por ele. modelos mais simples se saem muito melhores do que modelos mais complexos.
A Navalha de Occam: Sobre o mito 3, Damodaran nos relembra que o modelo não avalia empresas. Nós avaliamos empresas. Então não adianta colocar um monte de inputs no Excel e esperar que as fórmulas mágicas criadas nos dêem um número também mágico: entra lixo, sai lixo. 

Quanto mais inputs eu tenho no modelo,  maior é a chance de "errar" (errar nesse caso é uma questão de opinião e incentivo, conforme expliquei na postagem anterior) na valuation. Isso porque temos que fazer mais estimativas, que dependem de mais inputs, que podem ser outputs de outras pessoas (ou empresas) que usaram inputs errados etc. Ou seja: use o princípio da parcimônia (Leia sobre a Navalha de Occam). Sempre que tenho que montar algum modelo ou vejo alguém complicando as coisas, eu lembro do Professor Otávio Ribeiro de Medeiros (da UnB), que falava sempre que possível sobre isso.

Taxa livre de risco (Rf) no Brasil: Damodaran disse que sempre avaliava (é, ele se interessa por empresas brasileiras e parece realmente conhecer algumas) as empresas brasileiras em US$, porque não havia uma Rf "confiável" aqui, então era melhor avaliar em US$ com a Rf de lá, efetuando alguns ajustes. Mas parece que os EUA não são tão mais confiáveis que nós, não mais. Então ele avaliou a Natura (NATU3) em R$.

Percebam que a Rf usada por Damodaran foi de 11,28% (avaliando uma empresa dos EUA ele usou 4,78%).

Como ele chegou a essa Rf? Explicação: Título do Tesouro Nacional (janeiro de 2013) - risco de default da moeda brasileira (Baa2) = 13,18% - 1,90% = 11,28%.

Prêmio pelo risco de mercado: no prêmio pelo risco de mercado da Natura, Damodaran analisou a exposição da empresa ao mercado internacional, calculando uma média ponderada do prêmio pelo risco do mercado. Isso é importante, porque ela não está exposta apenas no Brasil.





Avaliar a consolidada ou cada empresa individualmente? Em empresas que precisam consolidar as demonstrações (ele diz que isso é uma invenção contábil que não sentido - não comentarei esse comentário, em respeito ao conhecimento que ele tem sobre valuation) ele não avalia a consolidada. Ele avalia cada empresa do grupo individualmente, após isso faz a soma das partes. Isso facilita as estimativas. Mas acho que temos que ter cuidado principalmente com as transações "intergrupo".

Mais alguns pontos específicos citados por ele:
  1. Apenas 10% das Valuations são intrínsecas: a maioria delas simplesmente dá um preço. O mercado diz o "valor". Não há uma avaliação de fato do cria valor.
  2. Damodaran e a Microsoft: quem acompanha o Musings on Markets sabe que Damodaran sempre avalia a Microsoft, porém ele é algo como fan ao contrário dela. Ele é realmente um fan da Apple. Um exemplo da sua paixão pela Apple é que ele desenvolveu um aplicativo voltado para valuation apenas para iPad e iPhone, o uValue. Ele disse que se nós temos uma tecnologia como o Android (para ele algo como um zumbi - morto, mas andando) é um problema nosso. Putz...;
  3. Ajuste do P&D no CAPEX: vale ler o arquivo que está em seu site. Cuidado com a norma brasileira, onde a pesquisa é despesa e o desenvolvimento é capitalizado;
  4. O risco país e a exposição da empresa: nesse paper ele explica teoricamente e "praticamente" o porquê e como incluir esse fator nas "contas". Um fato engraçado para isso é que ele "desenvolveu" essa metodologia no avião, há cerca de 10 anos, em uma viagem para o Brasil. Ele tentava dormir no avião, porém o seu vizinho roncava muito, então ele resolveu revisar os slides e pensou sobre isso: o Brasil tem mais risco do que os EUA. Deu a sugestão na palestra que ele vinha aqui no Brasil, as pessoas gostaram da ideia e então ele escreveu o paper. Há inclusive uma planilha só com empresas brasileiras (e é a única nessa seção do site para esse fim, somos importantes); e
  5. Tem muito mais materiais no site dele na seção de Research & Papers. Todas as estimativas que você precisar fazer ele tem algo para ajudar. Parabenizo o Professor por toda a sua dedicação à essa área tão importante de Finanças.
Talvez vocês estejam se perguntando sobre o porquê de eu ter chamado ele de O Lady Gaga das Finanças (na verdade, ele se chama... eu só repliquei). Com base nessa postagem já dá para ter uma ideia.

Ele é realmente revolucionário, assim como Lady Gaga. Qualquer pessoa pode assistir às suas aulas pela internet, suas palestras estão no youtube (inclusive com versões de 8 minutos - infelizmente não consegui encontrar em uma busca rápida). Seus livros são muito didáticos e têm títulos muito interessantes, a exemplo do "The Darkside of Valuation" (sobre casos complexos de valuation).

Para finalizar, informo o título do seu próximo livro: "Já estava aqui quando eu cheguei". Não lembro sobre o que vai ser (estava rindo da história que ele contou para justificar esse título), mas ele justificou que ligou para um empresa que fornece dados (uma espécie de Economatica) para suas valuations para questionar sobre como eles calcularam os betas. O indivíduo apenas disse o seguinte: já estava aqui quando eu cheguei.

Espero que vocês tenham gostado dessa síntese. Não deu para falar sobre tudo, anotei muita coisa específica, mas fiz uma seleção de comentários gerais que podem ser importantes para algumas pessoas que, assim como eu, estejam entrando nesse "mundo". Na próxima vez eu estarei lá de novo, espero que não demore 10 anos mais uma vez.

2 comentários:

  1. Parabéns Luiz!! Também sou apaixonado pela didática e conhecimento do Damodaran. Incrível. Achei teu blog pesquisando exatamente a próxima agenda do professor. O Damodaran me ajudou a achar um valor aproximado do custo do capital próprio de uma empresa que avaliei no meu MBA... ele é fantástico! :)

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    Respostas
    1. Valeu, Nogueira. Ele esteve aqui uns dois meses atrás. Deve vir ano que vem de novo.

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