sábado, 5 de abril de 2014

Ohlson não publicaria seu artigo no Brasil

Relendo o artigo de Ohlson (1995) me fez pensar (ter quase certeza, na verdade) de que ele nunca publicaria esse artigo aqui no Brasil.





Argumentos (2 em 1, metodológico e teórico):

Não há explicação do que é "básico" e subjacente ao modelo. De repente ele dá um pulo de uma equação para a outra. Aí para entender o que ele fez nós temos que pensar um pouco e "refazer" o percurso.

Quando não explicamos o que é básico aqui nos nossos artigos o avaliador acha uma afronta (porque ele não entendeu e não se deu o trabalho de pensar no que foi feito). 

Um exemplo que não está relacionado com matemática ou estatística (mas está com o modelo de Ohlson): uma vez um avaliador criticou um trabalho meu porque "ninguém é obrigado a saber o que é value relevance" (com Vinícius pediram para ele não usar a expressão em inglês, ninguém entende isso). Parafraseando o Professor Matias-Pereira (UnB): é para rir ou para chorar?

Nas publicações daqui nós estamos acostumados a dar [pelo menos] uma volta em torno da Terra para chegar no ponto que nós queríamos. Eu, particularmente, acho isso desnecessário e só nos faz aumentar o volume de leitura do artigo, tirando o foco do que é importante: os novos resultados. 

É importante tratar da teoria subjacente ao tema, mas outros trabalhos já fizeram isso, inclusive revisões de literatura específicas. Nosso papel, principalmente em trabalhos empíricos, é trazer coisa nova, que são os resultados. Não há necessidade de refazer a revisão da literatura. 

Eu sou bem (estou me tornando mais, talvez demais também não seja bom) objetivo quanto a isso. Parte disso eu aprendi lendo os trabalhos de Ohlson, como o do modelo citado que tem apenas 8 referências, sendo que 3 são de outros trabalhos dele que serviram como uma espécie de introdução para o seu modelo.

Outra coisa engraçada dos avaliadores aqui no Brasil é que eles tentam avaliar artigos cuja metodologia eles não entendem (parte disso também é culpa dos editores, mas sei que há escassez de avaliadores dispostos). Recentemente um amigo (Professor Orleans Martins) estava reclamando comigo que um avaliador disse que poderia haver multicolinearidade no seu modelo... sendo que era uma regressão simples.

Outro ponto é que nossa criatividade fica muito limitada aqui no Brasil. Fama e French, Dechow e Dichev, entre muitos outros pesquisadores da nossa área costumam usar o que eles chamam de "intuição econômica" em seus artigos. Isso nunca seria aceito aqui, pela maioria dos avaliadores. 

Mas o que é a pesquisa se não for uma ferramenta para ajudar a "prática"? Então sem a intuição prática nossa pesquisa perde um pouco de aplicabilidade e aí voltamos ao nosso grande problema: nós, acadêmicos, pesquisamos para nós mesmos. Pelo menos é o que parece na minha área e com a minha pouca experiência. Sobre isso, eu lembro do Professor Dimas Queiroz (UFERSA) que escreveu um artigo com base nos problemas que ele percebeu quando trabalhava com orçamento de Prefeituras. Certa vez um avaliador disse que não havia teoria para isso.

Provavelmente Fama e French, Dechow e Dichev, Ohlson, entre outros não teriam seus trabalhos publicados aqui no Brasil. 

Então eu me questiono: considerando que estamos aprendendo a pesquisar na área de contabilidade, não estaríamos aprendendo errado?

ATUALIZAÇÃO: O Professor Fernando Galdi (FUCAPE) fez um comentário importante sobre a publicação do artigo que deu base a essa postagem:
(...) interessante o post, mas eu faria um adendo. O artigo do Ohlson (1995) foi rejeitado nos principais journals americanos (incluindo a Accounting Review) e também não foi publicado por lá (acharam inadequado metodologicamente à época - talvez muito teórico). Foi publicado na canadense CAR (Contemporary Accounting Review).
Até nos grandes pólos de pesquisa nós temos a criatividade um pouco limitada. Mas como disse o Professor Galdi em um outro comentário: ainda bem que há essa diversidade na academia.

Se não houvesse diversidade, talvez não tivéssemos esse trabalho publicado, que deu base para tantos outros teóricos e empíricos. 

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