sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A lógica da escrita científica: participação do leitor Thales Rufino

Na primeira parte dessa série eu respondi a uma dúvida nos comentários do post. Em seguida um outro leitor sugeriu, pelo Facebook, que eu tratasse de alguns pontos mais gerais.

Continuo aceitando sugestões. É muito bom quando recebemos feedback dos nossos leitores. Passa uma ideia de que não estamos sozinhos... kkk.

Thales Rufino é aluno da Especialização em Gestão Pública Municipal e atualmente também é aluno do 2º período do curso de Ciências Contábeis da UFPB.

O questionamento de Thales foi o seguinte:

" (...) falar a respeito dos projetos de pesquisa. O que se espera deles? Muitas vezes é feito de última hora e é preciso abordar temas que interessem a banca, ou pelo menos que sejam atuais. Como os alunos podem melhorar seus projetos?"

Eu respondo com base na minha experiência como avaliador de projetos de pesquisa.

Primeiro ponto. Espera-se que o projeto tenha uma boa contextualização do tema da sua pesquisa, de modo que sustente o problema e o objetivo da pesquisa. Quem tem mais contato comigo sabe que eu acho totalmente desnecessário haver um "problema" de pesquisa com uma questão e interrogação. Porém a maioria dos avaliadores de monografias, artigos etc cobram isso. Então, para se proteger e minimizar seu risco, deixe o problema bem explícito - de preferência em negrito (eu faço isso nos meus artigos, para evitar problemas... apesar de não concordar).

Eu gosto de ver tudo isso que eu citei acima em uma mesma seção. Mas o que acontece na maioria dos casos é que há uma introdução na seção 1, na seção 1.1 há a contextualização do problema e na 1.2 há a apresentação do objetivo geral e dos específicos. Eu prefiro que todos eles sejam apresentados numa mesma seção 1.

Além dessa parte inicial, é importante que haja uma seção da revisão da literatura e que ela não seja puramente normativa/legalista e histórica. O que eu vejo na maioria dos casos é que qualquer tema que o aluno for escrever sua monografia, ele dá um jeito de falar da história da contabilidade: do Big Bang até a convergência. Será que é necessário? Sobre isso eu recomendo que leiam a segunda parte da postagem dessa série.

Ampliar demais o referencial teórico aumenta a chance de errar. Se você gostar de perder tempo e de se arriscar. Vá em frente com a implicação do Big Bang para a contabilidade...

O referencial teórico deve contemplar a teoria base utilizada para embasar a sua pesquisa e a revisão da literatura. Esse é outro ponto que eu sinto muita falta nos trabalhos de graduação. Os alunos se preocupam tanto em falar de lei, normas e história que acabam esquecendo da teoria e da revisão da literatura.

A revisão da literatura deve apresentar os trabalhos relacionados ao seu tema que já foram feitos, de modo que o leitor possa perceber o que o seu trabalho tem de diferente dos outros e onde ele está situado.

Busquem não se limitar à literatura nacional. Esqueçam um pouco dos livros. Livro é para estudar pras provas! Busquem artigos de revistas relevantes (ver o Qualis CAPES).

Quando eu falo em não se limitar à literatura nacional não é porque é bonito usar referência em inglês. Estava conversando com Dimas Queiroz, Professor da UFERSA e colega do doutorado, sobre isso: não é apenas ser em inglês. É ser de um journal relevante.

O inglês é a língua da ciência, por isso os melhores trabalhos são publicados nessa língua. Mas o importante é que seja uma revista (journal) de referência. Temos algumas brasileiras, inclusive.

Porém, para mim, o mais importante é a metodologia. Esse é o ponto mais frágil que eu tenho visto nos projetos. Metodologia está muito longe de ser a definição da pesquisa, se é quali, quanti, exploratória etc. Eu só defino isso na minha pesquisa quando os avaliadores pedem. Você tem que focar em como você pretende realizar a sua pesquisa. Como você responderá o seu problema e atingirá o seu objetivo? Isso tem que estar bem definido para que os avaliadores possam contribuir com o seu trabalho.

Segundo ponto. É altamente recomendável que não deixe o seu projeto para última hora. Eu trabalhei em uma Faculdade onde os alunos iniciavam seu projeto no sexto período. Infelizmente a grande maioria deles não levava a sério e escrevia algo apenas para ter a nota. Então a monografia acabava não saindo muito boa.

Busquem ler artigos (eu cobro sempre que meus alunos leiam artigos, desde os que têm aula comigo no primeiro período), pois lendo artigos você saberá como fazer um trabalho científico e terá ideias para fazer o seu próprio.

Terceiro ponto. O tema não deve interessar à banca. O tema deve ser de interesse geral. Se for de interesse geral, provavelmente será de interesse da banca. Porém, infelizmente, sempre aparece aquele membro da banca que não lê o seu trabalho, ou que tem apenas o objetivo de destruir o que foi construído. Quando você se deparar com um desse tipo, basta apenas escutar o que ele tem a dizer e esperar ele terminar o seu show (tem um professor meu que diz que para alguns membros de banca aquilo é um palco... deixa ele terminar o show, pois sua aprovação também depende dele). E pense nisso: é muito mais fácil destruir uma coisa. Quero ver construir. Construir é para poucos (também é uma frase de um professor meu).

Quarto ponto. Com base em tudo isso que eu disse, já dá para ter uma ideia do que você tem que fazer para fazer um bom projeto.

A maior dica é ler, ler, ler, ler, pensar, pensar, pensar, ler, ler, ler, fichar, fichar, fichar... e discutir com outras pessoas. Procure um orientador o quanto antes. Isso é importante.

Boa sorte no projeto!



5 comentários:

  1. Excelente professor. Concordo que a metodologia faz toda a diferença. Um grande abraço! - Thales Pann S. Rufino

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  2. Bom dia Professor Felipe!

    Poderia esclarecer mais sobre este trecho:

    "Porém, para mim, o mais importante é a metodologia. Esse é o ponto mais frágil que eu tenho visto nos projetos. Metodologia está muito longe de ser a definição da pesquisa, se é quali, quanti, exploratória etc. Eu só defino isso na minha pesquisa quando os avaliadores pedem. Você tem que focar em como você pretende realizar a sua pesquisa. Como você responderá o seu problema e atingirá o seu objetivo? Isso tem que estar bem definido para que os avaliadores possam contribuir com o seu trabalho".

    Pergunta.
    Posso definir no início do meu projeto, se minha pesquisa será: Quantitativa, qualitativa ou exploratória?

    Não entendo bem essas definições. Poderia explicar melhor?

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    Respostas
    1. Paula, eu tenho um viés forte de que isso não faz muita diferença no resultado final do seu trabalho. Assim, eu nunca defino qual é o tipo da minha pesquisa.

      Você deve focar em outros pontos mais relevantes. Recomendo que leia alguns artigos publicados em boas revistas para ver como é que eles fazem isso.

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  3. Livro

    Como Ler Artigos Científicos - da Graduação Ao Doutorado - 3ª Ed. 2012


    http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/4050856/como-ler-artigos-cientificos-da-graduacao-ao-doutorado-3-ed-2012

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