sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Quanto mais insider trading melhor?

A utilização de informações privilegiadas, como todos sabemos, é crime e é prejudicial ao bom funcionamento do mercado de capitais (algumas pessoas dizem que não é tão ruim, e eu sou uma delas). O que nem todos sabem, ou nunca avaliaram é que os insiders (aqueles que têm acesso privilegiado a algumas informações)  podem negociar as ações ou demais títulos das suas companhias de forma legal, desde que divulguem tal operação ao órgão regulador do mercado de capitais de seu país (CVM no nosso caso) e respeitem alguns prazos.

Fonte: eu mesmo que fiz em um momento de ócio criativo
Nós já divulgamos alguns posts sobre insider trading, mostrando, por exemplo, que a atuação desses agentes munidos de informações privilegiadas pode ser maior na América Latina do que nos EUA, falamos também do efeito do poder e da cobiça, que pode levá-los a agir dessa maneira, e, mais recentemente, nós conseguimos ganhar o prêmio de melhor trabalho da área de Mercado Financeiro, de Crédito e de Capitais, no Congresso da USP, com um trabalho que tenta mostrar que a atuação desses agentes possui conteúdo informativo relevante para a avaliação das empresas que negociam seus títulos na Bovespa (veja aqui).

Porém, aqui no Brasil e no resto do mundo, as matérias que saem nos meios de comunicação apenas mostram o lado ruim do insider trading. Para a minha surpresa, li uma matéria hoje na Revista Capital Aberto que trata da criação do primeiro fundo de investimentos baseado em inside information (Catalyst lança primeiro fundo de insider trading). Conforme a Capital Aberto, a estratégia do "legal insider trading" é "adquirir ações que experimentem um grande volume de compra por insiders e vender a descoberto aquelas que registrem um alto índice de venda", uma vez que eles têm que divulgar à SEC as suas operações com os títulos da companhia.

É importante salientar que nem todas as operações dos insiders são baseadas em inside information, eles podem vender as ações para comprar uma apartamento novo, para realizar lucro ou prejuízo, ou alguma outra estratégia. Em minha dissertação de mestrado (que será defendida em breve) eu cito a pesquisa de Jaffe (1974) que avaliou se os insiders conseguiam retornos anormais, com base em suas compras e vendas divulgadas à SEC. Jaffe encontrou o resultado esperado de que eles conseguem, porém autores como Rogoff (1964) não puderam obter a mesma conclusão. 

Além disso, alguns teóricos como Grossman e Stiglitz (1980) afirmam que os insiders divulgam informações privilegiadas ao mercado quando negociam os títulos das companhias, reduzindo assim a assimetria informacional, no lugar de aumentá-la. Resta-nos saber: será que quanto mais insider trading melhor?

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