segunda-feira, 28 de março de 2011

Estouro de orçamento prejudica rentabilidade das construtoras


Dois ícones da construção civil, empresas com histórico sólido e respeitadas pelo mercado, foram alvo de críticas nas duas últimas semanas: Cyrela e MRV. A luz amarela automaticamente acendeu. Ao mesmo tempo, apesar dos excelentes resultados anuais - com crescimentos superiores a 50% - uma análise mais detalhada dos balanços mostra que praticamente todas as empresas do setor tiveram queda nas margens no fim do ano passado. Seria motivo para um "alerta vermelho"? Analistas e as próprias empresas dizem que não, embora o mercado esteja, claramente, de mau humor com o setor. Desde o início do ano, as ações caem 12% e o Ibovespa 2,22%.

Os estouros no orçamento - principalmente por conta do aumento no custo da mão de obra - saíram do discurso e viraram fato, machucando a rentabilidade das empresas. Com um reajuste de orçamento de R$ 50 milhões, a MRV foi o caso de maior repercussão - muito em função da expectativa do mercado, que não esperava pela queda de margens. Mas a Cyrela, que já vem dando sinais nessa direção e reduziu as previsões de vendas e margens, também deve refletir a questão no balanço que será divulgado hoje.

Um levantamento feito pelo Valor com as construtoras que já divulgaram resultados (8 de 17) mostra uma queda média de 3,7 pontos percentuais nas margens líquidas do terceiro para o quarto trimestre. Mas continuam altas, na casa dos 13%. "Ainda vejo risco de execução e estouro de obras, que precisam ser monitorados, mas não há nada fora do controle", diz David Lawant, analista do Itau BBA. "É mais um efeito contábil, de quem demorou para reconhecer o estouro da obra, do que estrutural", afirma Guilherme Vilazante, analista do Barclays.

Desde que foram para a bolsa, as empresas estão enfrentando, pela primeira vez, o fim do ciclo de construção. E, é nítido, a maioria está com dificuldades. Enquanto os estouros de orçamento afetam as próprias empresas, os estouros de prazo são vividos pelos compradores. Todas as empresas usam os seis meses de carência previstos em contrato na entrega das chaves e boa parte vai além disso.

São problemas novos e numa escala muito maior - dado o crescimento acelerado de empresas ainda jovens. Conseguir repassar o cliente para o banco, na hora da entrega das chaves, é um deles. "As empresas estão com altos volumes de recebível em carteira sem repassar para o banco", diz Eduardo Silveira, analista do Fator.

A pressão nos custos fica mais evidente nas obras terceirizadas. A Tecnisa, por exemplo, reconheceu para os analistas que perdeu margem nas obras que não realizou. "A grande inflação do setor, que nenhum índice captura é a do subempreiteiro", diz um executivo. Quem não constrói, faz a gestão da obra e contrata empreiteiros para cada uma das etapas da construção e esses contratos - cada vez mais caros - não são capturados fielmente pelo INCC, índice da construção. Há, ainda, empresas que enfrentam problemas nas parcerias com construtoras em outros estados, caso da Cyrela na Bahia.

E este ano, como será? As companhias estão falando pouco sobre as vendas nos primeiros meses de 2011. O que pode ser sintomático porque, nesse setor, quando as coisas vão bem, todo mundo fala. O que se sabe é que os preços devem se estabilizar e a tendência é de queda na velocidade de vendas. 

Fonte: Daniela D'Ambrosio in Valor Econômico

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